Do Brasil para o espaço

22 de dezembro de 2022, às 17h26 –
Tempo de leitura aproximado: 7 minutos

Qual o limite para alcançar os seus sonhos? Para o Eng. Prod. Civ. Victor Hespanha, de 28 anos, nem o céu era suficiente. Com outros quatro turistas espaciais, o engenheiro participou de um voo suborbital pela Terra – modalidade que permite enxergar as camadas do planeta e vivenciar a falta de gravidade -, o que lhe conferiu o título de segundo brasileiro a viajar para o espaço.

Após comprar um token não fungível (NFT) por R$ 4 mil e participar do sorteio oferecido pela agência espacial, Victor foi selecionado e se deslocou até a cidade do Texas, nos Estados Unidos, onde realizaria o treinamento e conheceria sua equipe. Formado em Engenharia de Produção Civil, Hespanha é natural de Minas Gerais e possui experiência em gestão estratégica, projetos e finanças, com atuação em diferentes segmentos, como construção civil, operações logísticas, mineração, indústria de alimentos e transportes.

Além de marcar a história do País, a viagem consolidou avanços da área espacial, especialmente sobre o papel da Engenharia. “O movimento que tem acontecido nesse setor ganhou mais relevância nos últimos anos, muito em função de companhias privadas, como a que ofereceu toda essa experiência. É um destaque em relação ao desenvolvimento de novas tecnologias para toda essa cadeia”, avaliou o engenheiro.

Em entrevista ao Crea-SP, Victor contou como foi essa experiência única. Confira:

– Qual foi a sensação de ter sido sorteado para viajar ao espaço?

Eu tinha uma expectativa de participar de um projeto interessante, mas não esperava que fosse ser um dos sorteados para a viagem espacial. Foi uma surpresa que deu frio na barriga, mas no final foi uma experiência que mudou minha forma de olhar para a vida.

 

– E como foi representar o Brasil nessa viagem e ser o segundo brasileiro a viajar ao espaço?

Eu sou engenheiro, então estar lá teve um gosto especial. Realmente foi uma honra e um privilégio representar o Brasil justamente por ser um assunto voltado à tecnologia, ciência e Engenharia. É muito importante esse exemplo, principalmente para os mais novos, e para que possamos ser reconhecidos perante os outros países por assuntos ligados à profissão.

– Você já tinha esse desejo de viajar ao espaço?

Eu não diria que tinha o sonho de ser astronauta, mas toda criança tem essa curiosidade. É algo que assistíamos nos desenhos e isso também instiga muito. Acredito que esse fator de olhar para o céu, ver as estrelas, a imensidão, sempre gerou uma curiosidade para mim, e se tornou algo muito natural ao começar a estudar e comparar os astros e os planetas.

No Brasil não há muito espaço para se desenvolver na área, ainda é pouco falado e não existe uma acessibilidade para esse tipo de carreira. Eu sou graduado em Engenharia de Produção Civil, trabalho com gestão, projetos e negócios, mas a partir do momento que tive essa oportunidade, reascendeu a expectativa de conhecer mais sobre o assunto.

 

– Como foi o processo de treinamento nos Estados Unidos?

Quinze dias após a chegada, tivemos um treinamento de dois dias para conhecer o lugar. Ficávamos juntos, como tripulação e equipe que ia para a missão, e para entender os comandos. Foi um processo muito especial. Entrar na cápsula, ver o foguete e simular o processo. Eu pude conversar com o pessoal da manutenção, engenharia, entender o fluxo de trabalho. Houve uma sinergia e identificação dentro da linha de produção deles.

Agora, falando como gestor, pude observar que o programa é bem desenvolvido. Aprendi muito sobre produtividade. Podem ter sido curtos para quem vê de fora, mas para mim foi cirúrgico. Toda a forma com que eles conduziram (a experiência) foi muito bacana pra mim.

– Você teve alguma restrição para conseguir viajar?

Sim, desde o primeiro momento em que eles enviaram os contratos com pré-requisitos para a viagem. Eram listadas algumas limitações, como peso e acessibilidade. Isso porque o acesso ao foguete se dava por uma plataforma com cinco ou seis lances de pavimento e não tinha elevador. Então, nós tínhamos que andar por essa plataforma.

Até a alimentação era baseada nisso. Não podíamos deixar de comer, mas também não podíamos comer muito. É legal enfatizar que o voo era suborbital, por volta da Terra. É uma viagem rápida e isso faz com que seja tudo mais leve, tanto o treinamento quanto a alimentação. É muito mais focado no equilíbrio e nos pré-requisitos básicos, como verificar a mobilidade mínima para acessar a plataforma e se não passaríamos mal psicologicamente por conta da altura.

 

– Como você enxerga essa experiência para a vida de jovens e crianças que sonham em trabalhar na área tecnológica e, quem sabe, tenham o desejo de conhecer o espaço, sabendo que agora isso está muito mais próximo da realidade deles?

O primeiro voo com civis aconteceu em junho de 2021. Desde então, mais de 140 pessoas tiveram a mesma experiência, é um número grande e será normal daqui para frente. Comparo com o desenvolvimento do setor aeronáutico, principalmente entre os anos 1980 e 2000. Antigamente, só as pessoas ricas conseguiam viajar de avião. A partir da tecnologia, nós temos um acesso maior de pessoas que não tinham recursos.

Eu acredito que o movimento será muito semelhante e, quando nós falamos de Engenharia, a força da juventude é fundamental. A Engenharia é uma só. Podemos separar em cursos diferentes, mas, no final, todas são complementares em função de projetos específicos. É a Engenharia que supre essa demanda do setor tecnológico da área espacial.

É muito importante que os nossos engenheiros estejam preparados. O meu trabalho e a minha mensagem estão focados nisso, para abrir os olhos das pessoas, principalmente da juventude, para entrar nessa onda e surfar da forma correta. Se conseguirmos desenvolver um projeto dentro da área espacial no Brasil, nós seremos bem-vistos pelo mundo. Todos os grandes países têm um programa espacial bem desenvolvido. Nós precisamos e estamos em um momento importante para trilhar esse caminho.

– Agora uma curiosidade. O que você conseguiu ver da janela da cápsula?

Eu consegui ver nitidamente a curvatura da Terra e isso foi bem interessante. O que me chamou a atenção também foi a camada de oxigênio próxima da Terra, que conhecemos como atmosfera.

À medida que você vai subindo, o ar torna-se mais rarefeito e há menos concentração de oxigênio. Aquele azul que nós vemos no céu, na verdade é uma concentração de fora e quando visto de longe, é uma camada extremamente fina comparada ao horizonte. Queria ter ido um pouco mais longe e ter observado com mais calma, mas essas duas vistas foram as que me chamaram muita atenção.

– E a viagem atendeu as suas expectativas?

Com certeza, foi muito mais do que eu pensava. É indescritível. Eu não consigo compartilhar com as minhas palavras essa experiência. Só quem esteve realmente lá para saber como é e eu espero que várias pessoas possam ter essa oportunidade.

 

Produzido pela CDI Comunicação

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