A modernização do setor agropecuário brasileiro perpassa, obrigatoriamente, pela convergência entre a Agricultura de Precisão e a Agricultura Digital, temas que centralizaram os debates técnicos no palco Agricultura, Abastecimento e Bioeconomia do Fórum de Políticas Públicas e no Colégio de Inspetores, que aconteceu em março deste ano.
O painel tratou principalmente sobre como a transformação na Engenharia Agronômica não se limita à adoção de novos equipamentos, mas define uma mudança de paradigma na gestão da variabilidade espacial e temporal das safras. O conteúdo foi conduzido pelos engenheiros agrônomos Luís Henrique Bassoi, pesquisador na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Instrumentação, e Ricardo Arruda, líder no Brasil em Agronomia Tecnológica e Sucesso do Cliente do “xarvio”, marca global de agricultura digital da BASF (sigla em alemão para “Fábrica de Anilina e Soda de Baden”).
A Agricultura de Precisão estabelece-se como uma estratégia de gestão fundamental que reúne, processa e analisa dados detalhados para fundamentar decisões que levam em conta a heterogeneidade do campo. Isso permite que intervenções de manejo, como a aplicação de insumos em taxa variável, ocorram com precisão cirúrgica, elevando a eficiência no uso de recursos e garantindo uma produção mais segura e sustentável.
Nesse cenário, a Agricultura Digital atua como o vetor de integração, permitindo que o fluxo de dados coletados por sensores terrestres, plataformas aéreas (como drones) e sistemas orbitais seja transformado em informações úteis para a tomada de decisão. A transição para a Agricultura 4.0, e a iminente Agricultura 5.0, introduz a Inteligência Artificial e a integração de sistemas em tempo real como ferramentas de suporte ao profissional, automatizando processos e otimizando o monitoramento de variáveis críticas, como a evapotranspiração e a umidade do solo.
No manejo da irrigação, por exemplo, a digitalização permite definir com exatidão o momento e o volume da aplicação hídrica, garantindo eficácia gerencial e eficiência operacional sem a necessidade de presença física constante na área, embora a presença técnica continue sendo o alicerce para a interpretação correta desses indicadores.

Para Luis Henrique Bassoi, além dos desafios enfrentados pelos produtores referentes à conectividade, a qualificação da mão de obra também é uma questão. “Hoje dispomos de uma gama de ferramentas e plataformas que abrem inúmeras oportunidades para o campo. Contudo, essa tecnologia não alcançará o efeito desejado em termos de eficiência e produtividade se não estiver fundamentada no sólido conhecimento agronômico”, completou Bassoi.
Entretanto, o pleno exercício dessas tecnologias esbarra em um gargalo estrutural discutido amplamente: a conectividade rural. Dados setoriais apontam que uma vasta extensão da área agrícola nacional ainda opera com cobertura de rede inexistente ou precária, o que impede a transmissão de dados de telemetria e o controle remoto de frotas.
A expansão da infraestrutura de rede é vital para que os algoritmos de reconhecimento, que diferenciam linhas de cultivo de plantas daninhas ou identificam falhas de plantio e estresse de biomassa, possam operar em sua capacidade máxima.
O uso de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs) e o sensoriamento remoto via satélite surgem como tecnologias complementares que, quando integradas, oferecem um mapeamento detalhado da propriedade, permitindo que o produtor economize insumos e maximize seu potencial produtivo.

“A agricultura digital não tem como premissa substituir a presença do profissional no campo; sua função primordial é direcionar as intervenções, permitindo que o olhar técnico seja aplicado com precisão onde e quando ele é mais necessário”, disse Ricardo Arruda.
As discussões técnicas reforçam que a tecnologia, por mais avançada que seja, é uma extensão do conhecimento agronômico, e não um substituto para a responsabilidade técnica. O crescimento de plataformas e ferramentas digitais amplia as oportunidades no campo, mas o sucesso dessas inovações depende diretamente da capacidade do profissional em converter grandes volumes de dados em manejo agronômico eficiente. Cabe aos órgãos de classe e aos fóruns de políticas públicas fomentar a infraestrutura tecnológica e a capacitação contínua dos profissionais para liderar essa nova era do agronegócio, em que a conectividade e a ciência de dados tornam-se os novos pilares da produtividade nacional.
Produzido pela CDI Comunicação
