Transformar demandas urbanas em serviços reais para a sociedade exige mais do que boas intenções: demanda critério técnico e organização a longo prazo na administração estatal. Esse foi o ponto de partida do painel “O papel da Engenharia na construção de políticas públicas eficientes”, que abriu a programação do último dia da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA), nesta sexta-feira (16/10), no Centro de Convenções AM Malls em Aracaju (SE). A palestra colocou o conhecimento das categorias do Sistema Confea/Crea no centro do debate sobre o futuro dos municípios brasileiros.
A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo, engenheira civil Natália Resende, conduziu o painel e mostrou como a visão sistêmica da Engenharia é indispensável para superar a cultura de gerenciar apenas emergências. A palestrante explicou que obras estruturantes em setores estratégicos — como os R$ 194 bilhões do programa SP nos Trilhos, as travessias litorâneas e os projetos de saneamento e hidrovias — exigem um plano contínuo e governança regulatória firme.
“Muitas vezes, na administração pública, vivemos apagando incêndios do cotidiano. Embora o atendimento imediato às urgências da população seja indispensável, uma gestão não pode se limitar a isso; é preciso construir políticas públicas estruturantes, o que só é possível quando unimos planejamento de longo prazo e governança regulatória”, pontuou.
Colocar a Engenharia como espinha dorsal da tomada de decisão é ponto central para o presidente do Confea, engenheiro de telecomunicações Vinicius Marchese. “O profissional precisa estar presente desde a concepção de iniciativas governamentais até a sua execução. Quando o gestor público compreende que o projeto técnico qualificado é o investimento mais seguro para o dinheiro da sociedade, o país ganha em eficácia, economia e qualidade de vida”, afirmou Marchese.
À frente do maior Conselho do país, a presidente do Crea-SP, engenheira civil Lígia Mackey, acredita que o fortalecimento local passa pela capacitação e detalhou como o Regional trabalha na prática para viabilizar essa transformação. “Entendemos que a transformação das nossas cidades depende diretamente da competência de quem toma as decisões. Por isso, atuamos como uma ponte direta entre a categoria e as prefeituras, oferecendo cursos itinerantes na nossa Trilha de Gestão Pública, criada para apoiar os profissionais registrados e os administradores municipais no planejamento urbano, garantindo que o conhecimento técnico direcione propostas que mudem a vida das pessoas”, destacou.
Ao detalhar as diretrizes de concessões e parcerias com a iniciativa privada no Estado, Natália defendeu a desmistificação dos modelos de contratação e enfatizou o foco na eficiência da prestação do atendimento público. “Precisamos superar a discussão rasa sobre privatização versus estatização e focar no que importa: a melhor forma de prestar um serviço de qualidade para o cidadão. Seja por concessão, Parceria Público-Privada (PPP) ou administração direta, o contrato técnico precisa ter metas claras e regulação baseada em indicadores”, complementou a palestrante.
Ao avaliar os desafios da mobilidade, do saneamento e da matriz energética, a gestora, que é também advogada, doutora pela Universidade de Brasília (UnB) em Regulação de Infraestruturas de Rede e mestra em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos, elogiou a criação do Índice Nacional de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), elaborado pelo Confea para nortear investimentos, e apoiou a expansão das hidrovias e ferrovias, ressaltando o trem de alta velocidade entre São Paulo e Campinas e a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO). A secretária explicou ainda a escala regional e a modelagem conjunta de contratos de longo prazo para fortalecer a economia circular no tratamento de resíduos e combater perdas na distribuição de água nas regiões metropolitanas.
O conteúdo do painel impactou diretamente os espectadores. A capacidade de conectar temas complexos de forma clara chamou a atenção do engenheiro eletricista José Nascimento, conselheiro do Crea-SP representando a Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), em Presidente Prudente. “Gostei muito da palestra. Natália demonstra um raciocínio lógico muito estruturado e uma forma envolvente de encadear os assuntos, o que deixa o objetivo da apresentação extremamente didático, sem contar a enorme relevância das obras estaduais que foram abordadas. Foi uma aula muito rica”, analisou José.
A vanguarda paulista na formação de gestores
A relevância do tema levado à 81ª SOEA reflete uma pauta que já é prioridade em São Paulo há mais de um ano. Por meio do Crea-SP Capacita, a Trilha de Gestão Pública percorre o Estado proporcionando formação continuada sobre temas diversos como licenciamento ambiental, uso do BIM para cidades inteligentes, planos diretores e elaboração de termos de referência para licitações. A iniciativa itinerante alcançou mais de 1.170 participantes em nove encontros, aproximando o Conselho dos prefeitos e secretários para demonstrar que ter equipes qualificadas é o caminho mais eficiente para evitar paralisações de obras e garantir o uso correto do dinheiro público.
O papel estratégico dessa formação técnica na administração governamental também foi o tema de capa da Revista CREA São Paulo n. 21, publicada em setembro de 2026, que detalha como a aproximação entre o Conselho e os municípios resgata o protagonismo da Engenharia, da Agronomia e das Geociências na elaboração das políticas urbanas que garantem qualidade de vida à sociedade.
Produzido pela CDI Comunicação


