Fenômenos geológicos: especialistas explicam a simultaneidade de terremotos pelo mundo

Geocientistas do Crea-SP detalham a independência entre os abalos sísmicos na Venezuela, Japão e EUA na última quarta-feira
30 de junho de 2026, às 14h10 –
Tempo de leitura aproximado: 4 minutos

A ocorrência praticamente simultânea de três grandes terremotos em diferentes partes do mundo acendeu o alerta na comunidade internacional e gerou questionamentos sobre uma possível conexão entre os eventos. No entanto, especialistas em Geociências apontam que a sincronia entre os tremores não passa de uma coincidência estatística, sem qualquer causalidade científica.

Diariamente, a Terra registra centenas ou até milhares de sismos, a maioria imperceptível. A atividade faz parte da dinâmica interna e da acomodação natural do planeta. O fenômeno que chamou a atenção da população global foi o fato de abalos sísmicos considerados fortes terem ocorrido quase ao mesmo tempo, em regiões muito distantes entre si, como Venezuela, Japão e Estados Unidos (Califórnia).

A explicação para essa coincidência envolve a análise das placas tectônicas, como pontua o engenheiro geólogo Fernando Augusto Saraiva, coordenador adjunto do Colégio de Instituições de Ensino Superior de São Paulo (CIES-SP) do Crea-SP e pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP). “Os três terremotos que aconteceram ontem foram uma coincidência. Cerca de 50 terremotos ocorrem todos os dias no mundo, com uma magnitude superior a 4.0 na escala Richter. Então, a ocorrência de terremotos ao mesmo tempo é muito grande. Não existe evidência científica de que um terremoto tenha ligação com o outro, porque eles estão em placas tectônicas absolutamente diferentes”, ressalta.

Além disso, as características geológicas de cada evento são completamente distintas. “Na Venezuela, foram dois terremotos em sequência, com grande impacto que ocasionam danos maiores, com cerca de 10 a 13 quilômetros de profundidade. Já no Japão, o terremoto está ligado às zonas de subducção das placas tectônicas, uma placa remontando sobre a outra”, complementa Saraiva.

Esse entendimento de que os são isolados é reforçado por outro especialista do Conselho, o engenheiro geólogo Lucas Furlan, diretor adjunto de Valorização Profissional do Conselho e professor do departamento de Geologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Rio Claro, que explica que eventos como esses não são comuns. “Tivemos um dia bastante curioso do ponto de vista geológico. Esses sismos, a princípio, não têm correlação uns com os outros. O que acontece é que houve uma coincidência do dia, e dificilmente um abalo sísmico que aconteceu na Venezuela possa desencadear, por exemplo, um tremor no Japão, como foi o caso. São locais que estão a muitos milhares de quilômetros de distância, em sistemas tectônicos, ou seja, encontros de placas tectônicas bastante distintos e distantes”, pontua. Embora distantes, o tremor na Venezuela pôde ser sentido de forma leve na Região Norte do Brasil, como Manaus, onde foram registrados movimentos sutis em piscinas e lustres, sem causar danos estruturais ou sociais.

Dando sequência à análise técnica, os especialistas lembram que, atualmente, não existe tecnologia capaz de prever com precisão científica o dia, a hora, o local exato e a magnitude de um terremoto com dias ou semanas de antecedência. Os abalos ocorrem quando tensões acumuladas em falhas geológicas são liberadas de forma súbita na crosta terrestre, uma estrutura de alta complexidade que não emite sinais precursores totalmente confiáveis. Fenômenos como pequenos tremores prévios, alterações no nível de águas subterrâneas, deformações milimétricas no terreno ou emissões de gás radônio são estudados, mas muitas vezes ocorrem sem que um grande sismo aconteça.

Diante dessa limitação, os esforços da Engenharia e das Geociências concentram-se no mapeamento de áreas de risco, no monitoramento em tempo real e na mitigação de danos. A Inteligência Artificial (IA) também começa a ser empregada para detectar microtremores imperceptíveis e reconhecer padrões em grandes volumes de dados sísmicos, visando o aprimoramento dos sistemas de alerta precoce.

Para combater os riscos e proteger a população, Furlan reforça que a atuação depende de um tripé fundamental. “O primeiro caminho é ter uma boa caracterização geológica do local. Isso engloba estudos na localidade, levantamento de históricos de tremores naquele local. Feito isso, o próximo passo é preparar a sociedade para lidar com esse tipo de evento. E o terceiro ponto, com certeza, é um monitoramento constante e efetivo com o sistema de alerta bastante eficaz, um alerta precoce”, completa.

Produzido pela CDI Comunicação

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