A Inteligência Artificial e a nuvem estão transformando centros urbanos em diferentes partes do mundo. Ao integrar dados em tempo real e ampliar a capacidade de processamento, essas tecnologias permitem uma gestão mais preditiva e eficiente de áreas críticas como segurança, energia e mobilidade. Na prática, a digitalização deixa de ser uma agenda futura e passa a responder a pressões concretas, impostas pelo crescimento das cidades e pela complexidade crescente dos serviços públicos.
As reflexões foram apresentadas pelo líder de projetos e arquiteto de soluções em Cloud Computing da Huawei, Alan Martins, com base em experiências internacionais, no palco dedicado à Inovação, Tecnologia e Gestão Pública durante o Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas e Colégio de Inspetores 2026. Realizado em março, o evento reuniu especialistas para discutir o papel da Engenharia na modernização administrativa.
Segundo ele, a base dessa transformação reside em um modelo de camadas e plataformas que conecta o mundo real ao digital. Martins explicou que, desde os sensores em carros até câmeras HD nas vias públicas, os dados são captados, transmitidos via conectividade de baixa latência e processados na nuvem. “Nessa camada é onde temos os agentes que lidam com as informações, para que elas sejam ‘trituradas’ e tratadas e então enviadas à IA que vai analisar e indicar ações e estratégias”, explicou.
Esse ecossistema permite que a gestão pública deixe de ser reativa para se tornar preditiva, antecipando falhas em redes elétricas, gargalos em ruas e estradas ou identificando riscos estruturais em edifícios antigos e em áreas degradadas que podem trazer risco à segurança. O resultado é visto em aplicações práticas que facilitam a vida do cidadão.
Na segurança pública, por exemplo, o palestrante destacou casos como o Smart Sampa da capital paulista e a experiência de Shenzhen (China), localidade na qual o uso de reconhecimento facial e análise de vídeos reduziu os crimes em 53%. “A tecnologia permite entender o comportamento coletivo no espaço urbano para desenvolver políticas e ações assertivas”, completou.
Na mobilidade, o impacto é igualmente drástico: Hangzhou (China) caiu da 5ª para a 57ª posição no ranking de congestionamentos após a implementação de semáforos adaptativos e corredores inteligentes, que priorizam veículos de emergência, otimizam o transporte coletivo e abrem caminhos alternativos em tempo real.
Experiências brasileiras
O setor de energia também apresenta avanços, com a iluminação inteligente gerando economias de até 80% e o uso de drones para inspeção de linhas de transmissão de longa distância. Martins citou o exemplo brasileiro de linhas que vêm do estado de Rondônia até Araraquara (SP), onde a substituição de helicópteros por drones tornou o processo mais barato, frequente e eficiente.
No cenário global, cases como o de Viena (Áustria), com foco na redução de emissões, e Copenhague (Dinamarca), com sistemas de climatização dinâmica distrital, reforçam que a sustentabilidade ambiental é indissociável da inteligência de dados.
Questionado sobre a implementação de projetos de Cidades Inteligentes em municípios paulistas de menor porte, Martins reconheceu desafios culturais e de infraestrutura, porém defendeu uma postura aberta à inovação para viabilizar investimentos. Ele também abordou a complexidade atual da governança e ética, citando discussões europeias e brasileiras sobre a chamada “nuvem soberana” – a capacidade de uma nação ou organização de controlar seus próprios dados, infraestrutura e políticas digitais, sem depender de jurisdições ou empresas estrangeiras. “O maior desafio local é como fazer essa fiscalização. Precisamos de políticas públicas sólidas e saber como inspecionar”, pontuou.
Ao encerrar, o especialista reforçou que a escalabilidade e a capacidade de processamento, somadas ao avanço no número de datacenters — que nunca foi tão alto —, colocam o Brasil em uma posição estratégica, especialmente diante da possibilidade de utilizar a chamada energia verde, menos poluente, em linha com a matriz energética limpa do país. Alinhado ao conceito de “começar projetos de forma estratégica e escalonada”, Martins deixou claro que a sinergia entre o planejamento da Engenharia e o uso das plataformas de IA é o único caminho para construir cidades resilientes, inclusivas e preparadas para a realidade urbana projetada para o ano de 2050.
Produzido pela CDI Comunicação


