
Neodímio, lantânio, cério e disprósio dificilmente aparecem nas conversas do dia a dia. No entanto, esses elementos estão presentes em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, celulares, baterias e diversas tecnologias consideradas essenciais para a economia de baixo carbono. Eles integram as chamadas terras raras, conjunto de 17 elementos químicos que ganhou protagonismo na corrida global por inovação, segurança energética e desenvolvimento industrial.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição privilegiada por concentrar uma das maiores reservas de do planeta. E São Paulo, mesmo sem reunir as principais jazidas nacionais, vem ampliando sua relevância na cadeia produtiva desses minerais por meio da pesquisa, do desenvolvimento tecnológico e da formação de profissionais especializados.
“O Estado tornou-se um polo de pesquisa e processamento ligados às terras raras pela concentração de infraestrutura científica, industrial, tecnológica e logística”, explica a engenheira agrônoma, de segurança do trabalho e geógrafa Eltiza Rondino Vasques, diretora técnica adjunta do Crea-SP.
Para o engenheiro geólogo Lucas Moreira Furlan, coordenador do Laboratório de Tecnologias Geoespaciais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e diretor de valorização profissional adjunto do Crea-SP, a integração entre pesquisa e setor produtivo é um dos fatores que fortalecem a posição paulista. “Iniciativas colaborativas e parcerias com o setor produtivo permitem avançar simultaneamente em pesquisa e ciência, ampliando a capacidade brasileira de agregar valor aos recursos naturais”, destaca.
A crescente atenção voltada ao tema também está relacionada ao debate sobre minerais críticos e estratégicos. Enquanto os críticos são considerados essenciais para determinadas cadeias produtivas e sujeitos a riscos de abastecimento, os estratégicos possuem relevância para o desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial dos países. As terras raras se inserem nesse contexto por serem indispensáveis para uma série de aplicações em transição energética e indústria de alta tecnologia.
Do laboratório à indústria
Embora o grupo seja composto por 17 elementos químicos, alguns deles se destacam pela ampla utilização industrial. O neodímio, por exemplo, é empregado na fabricação de superímãs de alta potência utilizados em motores elétricos e turbinas eólicas. O disprósio é utilizado para aumentar a resistência térmica desses componentes, enquanto o lantânio está presente em baterias recarregáveis, sistemas ópticos e equipamentos eletrônicos. Já o cério é aplicado em catalisadores industriais, polimento de vidros e processos metalúrgicos.
Mas a importância desses elementos vai além da sua presença em produtos tecnológicos. O verdadeiro desafio está em transformá-los em materiais capazes de atender às exigências da indústria moderna. É justamente nesse ponto que São Paulo se destaca. Segundo Eltiza, o Estado reúne universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos e empresas voltadas à inovação, formando um ambiente propício para o desenvolvimento desta cadeia produtiva. “O território não é definido apenas pelos recursos naturais disponíveis, mas também pela capacidade técnica, econômica e organizacional instalada”, afirma.
O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Processamento e Aplicações de Ímãs de Terras Raras para Indústria de Alta Tecnologia (INCT-PATRIA), desenvolvido com participação da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), é uma das referências nesse quesito. O projeto atua desde o beneficiamento mineral até a produção de superímãs empregados em motores elétricos, turbinas e equipamentos eletrônicos.
O IPT também desenvolve pesquisas voltadas à obtenção de didímio metálico e ligas de neodímio-ferro-boro, fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Essas iniciativas contribuem para reduzir a dependência tecnológica externa e ampliar a participação brasileira nas etapas mais sofisticadas do processo.
Tecnologia e monitoramento do território
Se a obtenção das terras raras exige conhecimento científico e inovação industrial, sua exploração também demanda planejamento territorial e rigor ambiental. Os processos de extração, separação e refino envolvem desafios técnicos relacionados à baixa concentração dos elementos na natureza, ao elevado consumo de energia e à necessidade de tecnologias avançadas para processamento. Ao mesmo tempo, questões como geração de resíduos, uso de recursos hídricos e preservação dos ecossistemas exigem acompanhamento permanente.
Nesse contexto, a atuação das Engenharias e das Geociências torna-se fundamental. Geólogos participam da identificação e caracterização das jazidas; engenheiros de minas atuam no planejamento e na operação dos empreendimentos; engenheiros químicos desenvolvem processos de separação e purificação; engenheiros de materiais trabalham na criação de novos componentes tecnológicos; e engenheiros ambientais contribuem para a mitigação dos impactos decorrentes das atividades minerárias.
A Geografia também ocupa posição estratégica. Por meio de geotecnologias, os profissionais da área realizam diagnósticos, acompanham alterações no uso da terra, monitoram recursos hídricos, identificam áreas de risco e avaliam possíveis impactos sobre comunidades e ecossistemas. “A Geografia ajuda a compreender não apenas onde estão os recursos, mas também como sua exploração afeta o território, as populações locais, os fluxos econômicos e a geopolítica global”, ressalta Eltiza. Além deste monitoramento, os geógrafos participam do planejamento territorial dos empreendimentos, analisando aspectos como infraestrutura logística, compatibilidade com o uso do solo, conflitos territoriais e expansão urbana.
Para a especialista, a combinação entre conhecimento científico, inteligência territorial e responsabilidade ecológica será determinante para o fortalecimento do ecossistema das terras raras nos próximos anos. O desafio está em transformar conhecimento em inovação, agregando valor à produção nacional e ampliando a participação do Brasil em um mercado cada vez mais estratégico.
Quer entender mais sobre onde as terras raras estão presentes e conhecer as profissões envolvidas? Confira também o infográfico especial publicado na nova edição da revista CREA São Paulo.

