O cenário da logística nacional e regional no agronegócio enfrenta desafios profundos e estruturais que exigem um direcionamento assertivo de investimentos e soluções de mobilidade. A eficiência conquistada no ambiente produtivo perde força ao encontrar uma rede de transporte e armazenamento ainda deficitária. Durante o Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas e Colégio de Inspetores 2026 do Crea-SP, ficou evidente que esse crescimento no país avança em ritmo superior à capacidade de escoamento, tornando a rede de distribuição uma pauta urgente para a Engenharia e a gestão pública.

No palco Agricultura, Abastecimento e Bioeconomia, o segundo painel do dia teve como tema “Logística e Armazenamento da Produção”, sendo mediado pela engenheira agrônoma e diretora técnica do Crea-SP, Gisele Herbst Vazquez.
O engenheiro agrônomo Thiago Guilherme Péra, professor e coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), trouxe o papel da área tecnológica na melhoria da infraestrutura, lembrando que o planejamento abrange etapas de estoque, custo, risco e competitividade. No Brasil, onde o volume movimentado ultrapassa 1 bilhão de toneladas, a quantidade carregada excede significativamente a cultivada, como no caso da soja, em que uma colheita demanda três unidades de deslocamento.
O palestrante ressaltou a dependência excessiva do modal rodoviário, que hoje responde por 65% do frete de cargas nacionais com mais de 216 mil km de extensão. Enquanto isso, as ferrovias (30.758 km) e hidrovias (20.128 km) somam apenas 15% cada. Somada à precariedade das estradas vicinais, a predominância desse modal gera um prejuízo de R$ 6,4 bilhões, equivalente a 1% do valor econômico produzido pelo setor agrícola nacional, e um impacto ambiental significativo, com a emissão evitável de 3 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Para o engenheiro, melhorar uma via com esse perfil não se resume à pavimentação.
“Temos desafios de infraestrutura, demanda reprimida, transporte e armazenagem. O Brasil perde capacidade de competir com outros mercados e o agronegócio global fatura mais. Ferrovias e hidrovias precisam crescer mais do que a produção para ajudar na precificação. Além da sazonalidade, temos um déficit grave, em que o país guarda apenas 70% da lavoura nacional, o que gera uma série de problemas. É fundamental utilizarmos o Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR) como um medidor regional a ser acompanhado ao longo do tempo, para garantir um direcionamento de investimentos preciso, com foco na mobilidade”, completou.
É justamente para acompanhar a evolução ao longo do tempo, como apontado pelo palestrante, que o InfraBR ganha relevância estratégica. O índice, lançado em março pelo Confea, oferece uma leitura integrada da infraestrutura brasileira a partir de seis grandes eixos.
Em São Paulo, que ocupa a 2ª posição nacional no ranking geral da plataforma, com nota 68,49, a dimensão de Mobilidade atinge a pontuação média de 66,43. Embora o Estado apresente desempenho de excelência nos modais Rodovias (89,82) e Aeroportos (83,52), o indicador revela as vulnerabilidades citadas nos debates, registrando notas mais baixas justamente no Escoamento de Carga (48,26) e nos Portos (46,44), além do Deslocamento Intramunicipal (64,10). O diagnóstico reforça a necessidade de diversificação da matriz de transportes para aliviar as rodovias paulistas.
Na sequência, a engenheira agrônoma Andréa Leda, coordenadora de Pós-graduação da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (FEAGRI/UNICAMP), tratou da perecibilidade dos produtos agrícolas e dos impactos climáticos sobre a cadeia de distribuição. Andréa chamou a atenção para o desequilíbrio geográfico nacional, apontando que a produção está acima do Paralelo 16 e os portos abaixo.
Este paralelo expõe um impasse histórico: enquanto a maior parte do cultivo agrícola se concentra na metade Norte do país, os complexos portuários mais estruturados para exportação permanecem na metade Sul, obrigando a safra a percorrer longas distâncias rodoviárias, o que eleva o frete e causa perdas.
“As regiões tradicionais enfrentam hoje o grande desafio de não se tornarem obsoletas, um fator que muitas vezes mascara a real situação da nossa estocagem e resulta em graves perdas econômicas e desperdício. Como as mudanças climáticas já afetam diretamente a dinâmica e a geografia agrícola, torna-se indispensável equacionar soluções quantitativas e integradas tanto para a logística quanto para a armazenagem”, complementa Andréa.
A palestrante enfatizou que o problema compromete a competitividade do agronegócio e defendeu que os depósitos disponíveis precisam ser modernizados. Com a estimativa de perdas de até 30% na agricultura brasileira até 2050 em razão das mudanças climáticas, há uma migração produtiva em busca de regiões mais adaptadas, o que impõe novos impasses, pois toda aplicação financeira feita para corrigir a produção perde seu propósito com esse deslocamento.
Para Andréa, a solução passa por políticas públicas e recursos direcionados, em que a prioridade é a intermodalidade, novas rotas e pavimentação, sendo essencial investir em eixos estruturantes intermodais para dar mais eficiência ao escoamento dos produtos.
Produzido por CDI Comunicação
