Na ponta final da cadeia de exportação, o Porto de Santos surge como o principal termômetro da economia nacional. Atendendo a uma área de influência que abrange cinco estados, o equivalente a 29% do território brasileiro, o complexo ocupa quatro municípios paulistas e responde por 38% do PIB nacional, movimentando cerca de 186 milhões de toneladas de cargas por ano. Estratégico para o agronegócio e a indústria, Santos escoa 95% de todo o algodão e suco de laranja e 71% do café exportados pelo Brasil, operando de forma simultânea até 60 navios ao longo de seus 25 quilômetros de canal de navegação.

A manutenção do funcionamento dessa gigantesca engrenagem foi debatida no Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas e Colégio de Inspetores 2026, realizado pelo Crea-SP. O processo exige operações de Engenharia de altíssima complexidade, especialmente para garantir o calado necessário às grandes embarcações modernas, ou seja, a medida vertical entre a linha d’água e a parte inferior do casco, que determina a quantidade de carga que um navio pode transportar com segurança.

Durante o painel “Gestão de Obras de Dragagem: Caminhos para Eficiência e Sustentabilidade”, do palco Agricultura, Abastecimento e Bioeconomia, o engenheiro civil Matheus Novaes explicou que a atratividade do porto depende diretamente da capacidade de manter uma profundidade operacional constante de 15 metros e largura de 220 metros via dragagem contínua. O especialista destacou que os obstáculos operacionais aumentam à medida que a frota marítima global evolui para embarcações que chegam a 400 metros de comprimento.
Novaes ressaltou que a desobstrução envolve um ciclo contínuo de escavação e manutenção, exigindo monitoramento hidroviário constante e obras estruturais, como guias-correntes. Atualmente, todo o material removido no canal é destinado a um Ponto de Disposição Oceânica (PDO) localizado a 12 quilômetros da costa, com autorização do Ibama, uma vez que o sedimento do canal não é compatível com a engorda da praia de Santos.
“A profundidade do Porto de Santos é o fator decisivo para a nossa atratividade, eficiência operacional, capacidade de carga e segurança da navegação. Como o calado dita diretamente o volume de mercadorias que cada navio pode movimentar, a Engenharia realiza um trabalho permanente de monitoramento e manutenção por todo o canal. Receber embarcações de 400 metros é um grande desafio, e cada ciclo precisa ser planejado com precisão”, disse.
Enriquecendo o debate sob a perspectiva ambiental e de modelagem, o oceanógrafo Mauricio Gaspar trouxe abordagens voltadas à sustentabilidade, à dinâmica sedimentar e à otimização econômica dos processos de dragagem. O especialista apontou que, por se tratar de um serviço de alto custo e com severas restrições ambientais, o setor exige a superação de lacunas por meio de estudos aprofundados sobre assoreamento, erosão e balanço sedimentar.
Para orientar a gestão do material retirado e mitigar impactos climáticos, segundo Gaspar, o Porto de Santos adota as diretrizes internacionais da PIANC (Associação Internacional de Infraestrutura de Navegação). Entre as inovações apresentadas está a transição das antigas plantas em papel para a geração de superfícies 3D, que transformam dados brutos em informações precisas e evitam perdas de conhecimento sobre o canal. Além disso, estudos sobre a erodibilidade provocada pelas hélices dos navios e a aplicação de técnicas modernas permitiram avanços significativos no planejamento financeiro das obras.
“A dragagem é uma operação cara e complexa, que exige um conhecimento aprofundado sobre a dinâmica dos sedimentos para entendermos exatamente como o material chega ao porto. Seguindo diretrizes internacionais como as da PIANC e aplicando tecnologias como a modelagem de superfícies 3D, conseguimos migrar para uma gestão muito mais inteligente. O uso dos métodos atuais de nivelamento aliado à desobstrução, por exemplo, já demonstrou uma redução de até 60% nos custos operacionais, provando que é possível unir eficiência econômica, otimização do canal e sustentabilidade ambiental”, completou.
Produzido por CDI Comunicação
