Expansão da mobilidade desafia a Engenharia paulista

Especialistas discutem os desafios da qualificação profissional para acompanhar o avanço dos investimentos em mobilidade
10 de setembro de 2026, às 13h15 –
Tempo de leitura aproximado: 5 minutos

Com obras ferroviárias iniciadas, novas redes com prazos definidos e uma carteira bilionária de concessões, o setor de mobilidade paulista vive um ciclo de expansão sem precedentes. O avanço, no entanto, esbarra em um desafio: a falta de profissionais qualificados para planejar e executar as obras. O diagnóstico veio do painel “Rodovias e ferrovias: investimento e integração”, no palco dedicado ao tema “Logística e Mobilidade: São Paulo, o maior hub da América Latina”, do Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas e Colégio de Inspetores 2026, promovido pelo Crea-SP.

Segundo a economista Josiane Almeida, diretora financeira e de desenvolvimento de negócios da Motiva, a escassez atinge diferentes áreas da Engenharia. Na avaliação da executiva, o desafio não é apenas quantitativo, mas também cultural. “É necessário ter intencionalidade na Engenharia, trazendo mais inovação, rapidez e qualidade. Precisamos transformar em soluções reais aquilo que hoje ainda parece distante, como o uso da inteligência artificial, e fazer isso com foco no resultado, não como burocracia”, explicou.

O engenheiro de produção mecânica Eduardo Tavares, gerente executivo de Projetos da Engetrens, apontou dois fatores para esse cenário. O primeiro é estrutural: a formação técnica em áreas como projetos ferroviários, Engenharia Elétrica em sistemas de tração e gestão de obras urbanas não acompanhou o crescimento da demanda. O segundo é conjuntural: com vários planos em execução ao mesmo tempo, a disputa por especialistas se intensifica e a oferta de profissionais capacitados se torna insuficiente em disciplinas específicas, o que pode comprometer prazos e elevar custos.

Enquanto esse panorama se consolida, avançam algumas das principais iniciativas ferroviárias do Estado. Tavares apresentou o escopo da TIC Trens, concessionária responsável pela operação e manutenção da Linha 7-Rubi e pela implantação de dois novos serviços: o Trem Intercidades (TIC), previsto para entrar em operação em 2031, e o Trem Intermetropolitano (TIM), com previsão para 2029. A Engetrens, do Grupo Comporte, atua como responsável pela Engenharia integrada que viabiliza esses empreendimentos.

As obras foram iniciadas na véspera do evento, em março, no trecho entre Jundiaí e Campinas. Segundo Tavares, esse desafio é comum à maioria dos projetos ferroviários urbanos, em que grande parte da implantação acontece com a rede em pleno funcionamento, ao contrário de iniciativas greenfield, que partem do zero. Isso exige planejamento milimétrico para garantir a continuidade da operação e o cumprimento dos indicadores de desempenho ao longo de toda a fase de construção.

Entre os desafios técnicos listados estão terraplanagem e remanejamento de via sem interrupção da operação, construção de muros de vedação, execução de passarelas e travessias para pedestres. Também entram nesse conjunto a modelagem BIM das estações existentes e a atenção ao patrimônio histórico, como no caso da Estação Jundiaí, onde o projeto preserva a estrutura original enquanto incorpora a nova infraestrutura.

O especialista citou a Estação Água Branca como uma das iniciativas mais representativas desse pacote de investimentos. “Esse será o principal polo na cidade de São Paulo, tornando-se um grande ponto de conexão tanto para o escopo do TIC Trens quanto para toda a região metropolitana”, contou o executivo. O aporte previsto é de mais de R$ 1 bilhão apenas nesse ponto. A modernização elétrica complementa o quadro com a renovação da rede da Linha 7-Rubi, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), e a implantação de nova infraestrutura para suportar a operação do serviço expresso e do TIM.

O papel do Estado e a lógica das concessões

Durante o debate, Josiane afirmou que qualquer decisão de aplicação financeira começa pela definição do propósito do empreendimento e pela análise das origens e destinos que ele atenderá. “O papel do Estado na infraestrutura é o de planejar e identificar onde um trem e uma rodovia funcionam se complementando”, comentou a executiva.

Outro aspecto essencial, segundo ela, é a sustentabilidade dos contratos. “O Estado sempre foi vitrine no desenvolvimento dos contratos”, destacou, citando a importância de equilibrar as necessidades da sociedade e dos investidores para que os projetos saiam do papel e se mantenham viáveis ao longo do tempo.

Mediador do painel, o gerente regional do Crea-SP, engenheiro ambiental Guilherme Del Nero Fiorellini, contextualizou historicamente esse movimento. Na década de 1950, São Paulo contava com cerca de 5 mil quilômetros de ferrovias. A priorização do transporte rodoviário ampliou a extensão das estradas pavimentadas para quase 40 mil quilômetros em 2020, enquanto a rede férrea permaneceu praticamente estagnada, em cerca de 7 mil quilômetros. O resultado é uma matriz desequilibrada, com custos logísticos elevados e gargalos que pressionam a competitividade do Estado e o chamado “custo Brasil”.

Reverter esse cenário histórico exige, na avaliação dos painelistas, mais do que recursos financeiros. Isso depende da rede integrada, planejamento de longo prazo, segurança jurídica e da formação de profissionais capazes de transformar esses investimentos em obras concluídas. “Renovem a paciência e a habilidade de ensinar os mais jovens”, disse Josiane durante o evento. “A nova geração precisa aprender rápido, e será ela que vai construir o Brasil do futuro”, concluiu.

Produzido pela CDI Comunicação

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