No dia 7 de setembro de 1822, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, o príncipe regente Pedro de Alcântara (futuro Dom Pedro l) recebeu, às pressas, um comunicado da então capital, o Rio de Janeiro, de que aquele era o momento. A princesa Maria Leopoldina relatava em uma carta que se a Independência não fosse proclamada por ele, aconteceria de qualquer forma, considerando o fervor da população frente às investidas de Portugal. E assim o fez.
Mas até a chegada da comitiva do príncipe ao Rio Ipiranga naquele dia, muitos quilômetros foram percorridos a fim de apaziguar os ânimos do povo. Partindo para São Paulo, em mulas e cavalos, em 14 de agosto de 1822, passou por Bananal, São João do Barreiro, Silveiras, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida, Pindamonhangaba, Taubaté, Jacareí, São José dos Campos, Mogi das Cruzes, chegando à capital paulista no dia 24 de agosto. Poucos dias antes da proclamação, em 5 de setembro, Dom Pedro I viajou a Santos para monitorar fortalezas e visitar a família do ministro de Estado, José Bonifácio. É no retorno à capital da então província que a Independência foi proclamada.
Em um cenário completamente diferente do que conhecemos hoje, sem avenidas, rodovias, carros ou aplicativos, a resposta para o êxito em identificar tantos lugares de forma célere e assertiva, mesmo séculos depois, se encontra na Cartografia, área da Geografia que cria e interpreta representações em escala reduzida da superfície terrestre e conecta o saber científico à aplicação prática, sendo essencial tanto para a orientação e localização no espaço quanto para o planejamento e análise de territórios.
Para alcançar essa precisão, era necessário muito conhecimento, como destaca o coordenador da Comissão de Ética e conselheiro do Crea-SP, engenheiro cartógrafo João Fernando Custódio da Silva. “Os mapeamentos no século XIX eram feitos com instrumentos de observação do Sol e de estrelas, cujas posições astronômicas determinavam os pontos de referência na Terra e, desses, os locais e linhas para representar as cidades, ruas, estradas e rios. As altitudes e depressões do relevo eram marcadas por nivelamento. Evidentemente, todas essas informações eram representadas em papel, seguindo regras e convenções cartográficas”, explica.
Foi a partir da consolidação do espaço geográfico em um mapa produzido à mão que as tropas conseguiram realizar tal feito, cujo trajeto levaria muito mais tempo para ser percorrido, ocasionando acidentes e desvios.
O professor do Museu do Ipiranga e mestre em Engenharia Civil Jorge Pimentel Cintra destacou que é possível refazer a rota de Dom Pedro I atualmente graças ao mapeamento de diversos períodos e ao Sistema de Informação Geográfica (GIS). “Aqui, nós vemos a importância da multidisciplinaridade. Temos um mapa atual, um de 1930 e um de 1822. A partir do auxílio do GIS, alcançamos medições precisas, uma em cima da outra, o que nos permite dizer que o fato histórico se deu aqui, nesse lugar geográfico”, detalha.
Utilizada há séculos, a Cartografia conta atualmente com o apoio de satélites de posicionamento e de imageamento, drones, bancos de dados geográficos inteligentes, entre outras tecnologias. Assim, é capaz de produzir imagens ainda mais precisas que podem ser usadas em smartphones e abastecer aplicativos de serviços de entrega e locomoção, por exemplo.
“Há outras aplicações que apoiam as políticas públicas desde os municípios até às demandas nacionais. Um desafio de enorme importância é o de se conhecer a Amazônia, onde a Cartografia é uma das primeiras ferramentas a ser utilizada para a compreensão da região e o seu pleno domínio pelo Estado brasileiro”, completa João Fernando.
Seja no Ipiranga ou no Amazonas, no século XIX ou em 2026, a Cartografia segue contribuindo de forma relevante para que entendamos cada parte do mundo em que vivemos.
Produzido pela CDI Comunicação


