Em um cenário de pressão crescente sobre os recursos hídricos e desafios para universalizar o saneamento, especialistas defenderam uma maior integração entre políticas públicas e governança regional durante o Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas e Colégio de Inspetores 2026 do Crea-SP, realizado no fim de março, na capital paulista.
O evento reuniu cerca de quatro mil participantes e contou com uma programação distribuída em seis palcos temáticos, alinhados aos eixos do Infra-BR, índice desenvolvido pelo Confea, que traça um diagnóstico da infraestrutura brasileira. No espaço dedicado a Saneamento e Meio Ambiente, os debates se concentraram nas principais dimensões do setor, com foco em universalização, segurança hídrica e articulação entre entes públicos.
As discussões tiveram início com a palestra “Universalização do Saneamento: Desafios Pós-Marco Legal”, conduzida pelo engenheiro civil Sérgio Gonçalves, diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) e mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele apresentou um panorama do saneamento no país, destacando o déficit de atendimento, especialmente em esgotamento sanitário, e os desafios para cumprir as metas de universalização até 2033 diante do volume ainda insuficiente de investimentos.
“Saneamento básico é um serviço público e atender quem ainda não tem acesso, em muitos casos, significa quebrar paradigmas da forma de gestão, mas, sobretudo, é uma questão de humanidade”, afirmou Gonçalves, ao defender maior articulação entre setor público e privado, segurança regulatória e integração de políticas.
Água no centro do planejamento urbano
Na sequência, o painel “Segurança hídrica: resiliência, infraestrutura e gestão para os próximos anos” reuniu as engenheiras Juliana Alencar e Melissa Graciosa, com mediação do conselheiro federal pelo Distrito Federal Eng. Gutemberg Rios. Pesquisadora e consultora na área de manejo sustentável de bacias hidrográficas e Soluções Baseadas na Natureza (SBN), Juliana abordou os impactos da urbanização sobre a segurança hídrica, como a perda de elementos naturais e o aumento da demanda por recursos, e destacou a importância de integrar infraestrutura cinza e soluções baseadas na natureza para ampliar a resiliência das cidades.
“Ao passo que passamos a viver em cidades cada vez mais adensadas, isso gerou uma desconexão do homem com a água, o que se reflete no aumento das demandas sobre o recurso hídrico e nos processos de degradação. Precisamos chegar a um contexto de integração entre infraestrutura verde e cinza para garantir cidades mais resilientes diante dos desafios da água”, destacou.
Melissa, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) e doutora em engenharia hidráulica e saneamento pela Universidade de São Paulo (USP), complementou a discussão ao destacar o papel da governança hídrica, com gestão participativa, integrada e orientada por dados, para garantir o uso sustentável da água. Ela também chamou atenção para os desafios impostos pelas mudanças climáticas e a necessidade de planejamento adaptativo e cooperação entre setores.
Durante a apresentação, ela ressaltou a centralidade da segurança hídrica para o desenvolvimento. “Não existe nenhuma atividade humana ou econômica que seja possível sem segurança hídrica. A água é a matéria-prima de todo e qualquer setor produtivo, um insumo invisível que sustenta o desenvolvimento urbano, industrial e agropecuário”, afirmou. Em seguida, destacou a necessidade de gestão diante de usos múltiplos. “Quando há um recurso escasso e usos múltiplos, é necessário fazer a gestão para garantir que não falte água para nenhum uso importante para o desenvolvimento”.
Soluções regionais para desafios das cidades

O secretário-executivo da entidade, Adriano Leite, apresentou a atuação conjunta de 14 municípios na busca por soluções integradas e no fortalecimento de políticas públicas compartilhadas. “Nosso propósito é fortalecer a atuação política e institucional da região, buscando soluções e políticas públicas de forma integrada entre os municípios. Afinal, os problemas não respeitam limites geográficos. O que acontece em uma cidade impacta a outra, por isso a atuação coletiva e regional é fundamental”, enfatizou.
Produzido pela CDI Comunicação
