São Paulo: 472 anos feitos de concreto e poesia
25 de janeiro de 2026, às 7h00 - Tempo de leitura aproximado: 6 minutos

Do Pátio do Colégio em 25 de janeiro de 1554 até os dias de hoje. A complexidade atual de São Paulo, que hoje se ergue sobre rios cimentados e estruturas geológicas ocultas, exige um olhar técnico que conecta o planejamento à segurança por meio daquilo que o Crea-SP representa.
“Engenharia, Agronomia, Geociências, Tecnologia e Design de Interiores são alicerces que permitem a São Paulo se reinventar sem perder sua funcionalidade. Nossa missão é garantir que toda intervenção urbana tenha o rigor técnico necessário para proteger a sociedade e promover um desenvolvimento seguro. Parabéns a cidade que nos acolhe e que amamos!”, comemora a presidente da autarquia, a Eng. Civ. Ligia Mackey.
Transcorridos 472 anos, quem caminha pelas avenidas, sejam elas a do imortal cruzamento da Ipiranga com a São João ou em outros cantos, de leste a oeste, do norte ao sul, não imagina que, sob o asfalto, existe um terreno quase esquecido. Um lugar formado por rochas antigas, vales fluviais soterrados, solos moles, aquíferos, pedreiras desativadas e estruturas geológicas que condicionam toda e qualquer decisão da Engenharia.
“No seu início, São Paulo apresentava um relevo complexo, com colinas, vales encaixados e extensas planícies aluviais. Compreender esse território foi, e continua sendo, essencial para que a cidade crescesse de forma funcional e segura”, explica o Eng. Geol. Marcos Domingues Muro, reeleito coordenador da Câmara Especializada de Geologia e Engenharia de Minas (CAGE).
Ele relembra que diversas regiões consolidadas da cidade tiveram origem em áreas de extração mineral. Bairros como Vila Mariana, Aclimação e outras áreas próximas que abrigaram antigas pedreiras, responsáveis pelo fornecimento de brita, areia e blocos de rochas utilizados na construção das vias, edificações e demais obras de infraestrutura. Com o avanço da urbanização, muitas dessas pedreiras foram desativadas e posteriormente incorporadas ao tecido urbano, transformando-se em áreas verdes, equipamentos públicos ou bairros residenciais.
“Poucos exemplos são tão emblemáticos da interação entre geologia, as demais Engenharias e a urbanização quanto às obras de retificação dos rios Tietê e Pinheiros”, aponta Marcos. Os caminhos d’água que antes ocupavam amplas planícies, naturalmente sujeitas a inundações periódicas, foram progressivamente ocupados, exigindo grandes obras de Engenharia Hidráulica e Geotécnica a partir da evolução e expansão da cidade.
A canalização dos rios abriu caminho para vias e bairros, mas trouxe consigo o desafio eterno das águas e dos solos instáveis, e, com elas, as enchentes, respostas naturais para as suturas e remendos que a cidade sofreu ao longo dos séculos para tentar domar o terreno. Como aconteceu no Vale do Anhangabaú, uma baixada fluvial de solos frágeis, que foi domesticada para se tornar um símbolo da urbanidade e convivência paulistana.

Uma tradução dessa perenidade é o Parque Ibirapuera, que se tornou um organismo vivo no qual a agronomia e o paisagismo são preponderantes. Sua existência simboliza o sonho em manter o que é verde em meio ao avanço do concreto. “Ele é uma marca de como a agronomia contribuiu para a cidade, porém, mais importante do que criar, é conseguir manter”, explica a Eng. Agr. Francisca Ramos de Queiroz, vice-presidente Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo (AEASP).
Outra área de respiro verde da cidade, citada por ela, é o Parque do Trianon, que margeia a Avenida Paulista. “Ele foi resgatado da degradação e é fruto de uma época na qual a rede de parques da cidade saltou de 32 espaços para 100, uma tempo (recente) em que foram desenhados e implementados novos espaços, alguns deles lineares, que são pulmões que redesenharam o mapa urbano”, completa Francisca.

Essa Engenharia do verde, muitas vezes invisível, contudo, enfrenta o desafio da escassez de mão de obra habilitada e contratada pelo poder público e carece de maior escuta nas decisões que moldam a metrópole, como enfatiza a especialista. A presença do agrônomo, para ela, é o que separa a poda necessária do sacrifício de uma árvore ou o planejamento de uma calçada que respira, daquela que se afoga em enchentes. “Acredito que não somos ouvidos como deveríamos. Precisamos entender e estudar o impacto ambiental de todo e qualquer empreendimento antes que o cinza ocupe tudo”, admite, para exaltar iniciativas que devolvam o verde as ruas ou rooftops dos prédios, como a horta feita na Galeria do Rock, nas Grandes Galerias do Centro.

A partir dos espaços e terrenos contidos e da tentativa de não esquecer da natureza, foram criadas verdadeiras obras primas da Engenharia moderna. Mas quais são aquelas que simbolizam a cidade e a técnica de construção? “O vão livre do Masp, sustentado por pilares e vigas de concreto protendido, é um marco que desafiou as técnicas de seu tempo e redefiniu a paisagem da cidade. Assim como a Ponte Estaiada da Marginal Pinheiros, com suas pistas curvas e seu único mastro central, é um ícone da mobilidade paulistana. Juntas, elas mostram a capacidade da Engenharia se reinventar, da tradição à modernidade”, aponta a Eng. Civ. Cristiana Lopes Vilarinho, coordenadora da Câmara Especializada de Engenharia Civil (CEEC).
As artérias silenciosas (ou nem tanto) da cidade são compostas pela rede de túneis dos metrôs aos veículos que cobrem a cidade. São elas que sustentam o ritmo da metrópole que nunca dorme, funcionando como uma “São Paulo paralela” que respira e se movimenta sob nossos pés. Nelas, os sistemas de ventilação, sensores e estruturas invisíveis trabalham sem descanso, permitindo que o transporte de pessoas e cargas atravesse áreas densamente povoadas sem interromper a vida na superfície.

Nesses túneis, revela-se um espaço que conduz multidões de pessoas e montanhas de mercadorias. “Isso acontece com fluidez e eficiência, quase sem ser percebido, lembrando que o que não vemos também molda nosso cotidiano”, completa Cristiana. É nesse território, muitas vezes subterrâneo e discreto, que a cidade encontra seu equilíbrio, mostrando que a grandeza da Engenharia, Agronomia, Geociências, Tecnologia e Design de Interiores podem ser invisíveis.
A cidade de São Paulo, e o estado paulista, têm por trás de suas obras a contribuição decisiva do Crea-SP para garantir sua segurança e a efetividade. Algo feito por meio de uma fiscalização preventiva conduzida por profissionais habilitados e empresas registradas. Uma atuação que se estende de prédios e construções a cenários complexos como pontes, viadutos, pedreiras, drenagens, contenções, escavações profundas etc, e sempre em parceria com órgãos públicos para assegurar a durabilidade e a integridade das estruturas.
Mais do que fiscalizar, o Crea-SP é também um instrumento de estímulo tecnológico, de prevenção de riscos, proteção ambiental e valorização da boa prática profissional. Transformando técnica em segurança e desenvolvimento para a cidade.
Parabéns, São Paulo!