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Acesso em 18/03/2026 às 12h24.

Eventos climáticos extremos exigem planejamento técnico

Clima instável reforça importância dos profissionais da área tecnológica para adaptação das cidades

16 de março de 2026, às 11h40 - Tempo de leitura aproximado: 4 minutos

Mudanças bruscas de temperatura, tempestades intensas e crescimento no número de descargas elétricas (raios) têm marcado o cotidiano dos paulistas desde o início deste ano. Exemplo disso é o volume de chuva registrado na cidade de São Paulo no mês de março. Entre os dias 1º e 11 de deste mês, o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da Prefeitura de São Paulo registrou 79,8mm de chuva, o que corresponde a aproximadamente 45,5% da média esperada para o mês, que é de 175,3mm. 

 

A persistência dessas precipitações eleva o potencial para formação de alagamentos e deslizamentos de terra nas áreas consideradas de risco, deixando pessoas desabrigadas e desalojadas. Além disso, as fortes chuvas provocam inundações, enxurradas e queda de árvores, que podem causar acidentes, derrubar fios de tensão e interromper o fornecimento de energia. 

 

A incidência de raios no Brasil também é preocupante. Para se ter uma ideia, o País lidera o ranking mundial de incidência de raios, de acordo com a estimativa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). São cerca de 77,8 milhões de descargas elétricas ao ano, refletindo a alta atividade elétrica da atmosfera na região tropical. Esses fenômenos não só preocupam pelo volume, mas pela repetição e intensidade com que ocorrem em áreas urbanas densamente povoadas, como a capital paulista. 

 

A intensificação desses eventos não ocorre de forma isolada. Dados meteorológicos e análises recentes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que alterações no padrão climático, somadas ao avanço da urbanização, vêm ampliando a frequência e a intensidade das precipitações. 

 

Conforme o relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025“, elaborado pelo Cemaden, o ano de 2025 no Brasil foi marcado por altas temperaturas e eventos climáticos extremos. “As altas temperaturas globais, juntamente com os níveis recordes de vapor d’água na atmosfera em 2025, desencadearam ondas de calor sem precedentes, secas, incêndios e chuvas intensas, causando impactos significativos e miséria a milhões de pessoas”, aponta o documento. 

 

Nesse contexto, o conhecimento técnico e a atuação integrada de profissionais da Engenharia se tornam determinantes para reduzir riscos e fortalecer a resiliência das cidades. “O aumento da concentração de gases do efeito estufa eleva a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água, que funciona como combustível para os sistemas meteorológicos. Isso aumenta a disponibilidade de água precipitável e potencializa a ocorrência de chuvas intensas e tempestades mais severas”, afirma o conselheiro do Crea-SP, meteorologista Carlos Raupp. 

 

Raupp destaca ainda que o aquecimento das águas do Oceano Atlântico próximo à costa sul-americana tem contribuído para a intensificação de ciclones extratropicais na região Sul do Brasil, sistemas de grande escala que influenciam diretamente o clima. A formação recente de ciclones próximos à costa do Sudeste alterou o padrão do tempo e favoreceu o surgimento de ocorrências extremas, fenômeno acompanhado por centros especializados em monitoramento climático. 

 

Além dos fatores globais, o crescimento urbano exerce influência direta na formação desses incidentes. “O avanço das cidades substitui áreas de vegetação por superfícies como asfalto e concreto, intensificando a elevação da temperatura durante o dia. Esse calor acumulado favorece a formação de tempestades. É o chamado efeito de ilhas de calor urbanas”, explica o meteorologista. 

 

Diante desse cenário, a adaptação das cidades passa necessariamente pelo planejamento técnico das infraestruturas urbanas, especialmente dos sistemas de energia em serviços essenciais, que precisam manter funcionamento contínuo mesmo em situações adversas. “A Engenharia é o coração da segurança e da automação dos sistemas de energia que alimentam empreendimentos críticos. É o engenheiro que projeta o sistema, define níveis de redundância e garante energia estável e de qualidade para equipamentos sensíveis”, reforça o  Eng. Heverton Bacca Sanches, coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Elétrica do Crea-SP (CEEE) e da Coordenaria Nacional de Câmaras Especializadas de Engenharia Elétrica (CCEEE). 

 

Atuação integrada 

 

O Crea-SP estruturou o Comitê sobre Mudanças Climáticas, com o objetivo de debater propostas, consolidar contribuições técnicas e fortalecer a articulação entre profissionais da área tecnológica e o poder público. O grupo tem priorizado temas como prevenção e combate a enchentes, Soluções baseadas na Natureza (SbN) e integração da meteorologia às estratégias urbanas, ponto considerado central diante das variações cada vez mais frequentes. 

Complementando a agenda, o Conselho instalou, recentemente, a Câmara Especializada de Engenharia Ambiental e Sanitária (CEEAS). A medida é considerada um marco institucional, ao ampliar o foco em áreas estratégicas como saneamento, drenagem urbana, manejo de recursos hídricos e controle ambiental, frentes diretamente impactadas pela intensificação de eventos extremos. 

O Conselho lançou ainda o Caderno Técnico sobre Mudanças Climáticas, documento elaborado por especialistas que reúne fundamentos teóricos, referências normativas e experiências práticas voltadas à adaptação e à mitigação de riscos. O material aborda drenagem sustentável, florestas urbanas, gestão de riscos de desastres, recursos hídricos, resíduos sólidos e planejamento territorial, traduzindo diretrizes globais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), em orientações que podem ser aplicadas à realidade dos municípios paulistas. 

Ao integrar articulação institucional, atuação qualificada e fiscalização, o Crea-SP reforça seu compromisso com cidades mais seguras, resilientes e preparadas para enfrentar os impactos dos padrões meteorológicos. 

Produzido pela CDI Comunicação

Imagem: Freepik